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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Canção de amor

Eles vem, sussurram doces canções em seu ouvido e esperam ser recompensados com uma refeição, uma cama e um corpo, todos bem quentes. Dedilham sua harpa e cantam sobre donzelas, cavaleiros e dragões, mas, na verdade, sempre cantam sobre amor. Ah, o amor. Eu mesma nunca provei dele. Minhas irmãs e primas se encantam com a beleza vulgar do cantor e das canções que este traz consigo. Eu não. 
"Não. Para mim, não, Sor" Disse-lhe quando este ofereceu-me uma canção de amor. "O amor nada mais é para mim do que uma daquelas coisas que nunca dão certo."
"Não sou Sor nenhum. Apenas um vagabundo com uma voz bonita" Sorriu-me, cheio de uma alegria imperturbável. "Tenho a canção certa para você."
Cantou sobre uma tal Senhora de Correrio, mãe de rei e mulher de honra. Cantou sobre como o mundo tirou dela os filhos, não pela morte, mas pela mentira. A mentira e o amor levaram-lhe os filhos, o marido e tudo mais. "O mundo é cruel", cantava o cantor. A mulher tornou-se amarga de tristeza e o céu chovia sobre ela suas próprias lágrimas. "Podia ter chorado nesse momento, se o céu não estivesse fazendo isso por ela", pensou a Senhora... Ou pelo menos foi isso que o cantor disse que ela pensava. Lágrimas tentavam transbordar dos meus olhos, mas não daria a este cantor simplório tal prazer. Não seria como uma estúpida donzela com lágrimas nos olhos por uma canção.
"Esta é uma canção muito triste, Sor." Disse-lhe, em acusação. "Por que a dedica para mim?"
"Pareceu-me que era uma dessas meninas que gostava de histórias tristes. São as mais bonitas, na verdade." Por um momento, aquele sorriso tolo havia deixado seus lábios, mas logo em seguida retornou. "E já lhe disse que não sou Sor nenhum."
Olhei-o provocando, desafiando. Contudo, ele havia entendido certo. Agradavam-me muito as histórias tristes. O mundo era um lugar muito triste e merecia ser retratado com mais realismo. "O mundo é uma canção triste", pensei, mas não ousei repetir em voz alta. Em vez disso, disse:
"As canções soam doces tanto nos ouvidos de nobres cavaleiros e beldades bem nascidas quanto nos de pobres plebeus como nós. Por que vem aqui cantar sobre nobreza, amor e beleza, se tudo que aqui se encontram são resquícios de guerra e pobreza?" 
Amarga e triste, como a Senhora da canção. Deve ser por isso que minha mãe dizia que se um dia conseguisse arranjar um marido e produzir um filho, o meu leite seria amargo como os meus sentimentos. Todas as irmãs e primas riam quando a mãe dizia isso. O cantor voltou a dedilhar a harpa, mas não foi uma canção que saiu de sua boca. 
"Canções são esperanças tardias, mentiras doces e também um pouco de verdade ácida." Respondeu, com um sorriso de quem sabe muito. "Há guerra em todo lugar, jovem Senhora. A tristeza amarga tanto os ricos quanto os pobres. E também há beleza na simplicidade", dedicou-me um sorriso mais malicioso. "E o amor não é tão ruim assim. Destrói, mata, sim! Mas também faz viver. E eu mesmo acredito que uma morte por amor é menos amarga do que as demais", piscou para uma de minhas primas mais jovens, que enrubesceu e soltou uma risadinha nervosa.
Um longo silêncio estabeleceu-se então.
"E o que aconteceu com a Senhora depois da chuva e do céu que chorava por ela?" Perguntei. "Parece-me que a canção está incompleta, So... Cantor" Ele sorriu ao ouvir-me chamá-lo assim.
Quando terminei de falar, pareceu-me que minha voz soara alta demais, perturbando uma coisa sagrada. O silêncio que deveria ter sido quebrado por uma canção...
"O que aconteceu com a Senhora, você pergunta?" Ele riu. "Isso é uma canção que ainda não compus. Mas por essa decepção, concedo-lhe o direito de pedir uma outra, minha jovem Senhora."
"Não sou nenhuma Senhora" Respondi, aumentando aquele seu sorriso.
Fitei-o intensamente por um momento. Ele comprou sua refeição e uma cama com suas canções, crê que pode comprar-me da mesma forma. Talvez possa. Sorri para ele.
"Cante-me algo, algo..." 
"Algo?" Perguntou-me. Seu sorriso era uma coisinha arrogante.
Havia uma vontade insolente em mim de escutar suas doces ilusões, deitar em sua cama e deixar ele me convencer que o amor não é tão ruim assim. Afinal, se ele não me convencer,  sempre poderei pedir mais uma canção triste. Por hoje, já ouvi verdades demais. "Quero ouvir algumas mentiras, muito doces, por favor!", pensei. É isso que os cantores fazem. Eles iludem. Eles mentem.... docemente.
"Cante-me uma canção de amor!" Quase gritei.
Ele riu do meu entusiasmo repentino e começou a cantar:


"A minha donzela não é feita de sedas e rendas
mas como é bela, a minha donzela!
A minha donzela não foi criada num castelo...."

Lágrimas já surgiam no rosto das moças mais jovens empoleiradas nas mesas ao redor do belo cantor. Entretanto, foi para mim que ele olhou, mas eu apenas lhe sorri em resposta. Não chorarei. Não sou assim tão fácil de se convencer. Lá fora, uma chuva de outono começou e minha cabeça se encheu com uma canção diferente: "Podia ter chorado nesse momento, se o céu não estivesse fazendo isso por ela".

3 comentários:

Bruna K. disse...

Lindo, Amanda. Lindo, lindo demais. É incrível como a cada dia tu consegue escrever melhor. Parabéns.

Amanda Schmidt disse...

Obrigada. Incrível é como tu consegue escrever tão bem, Bruna.

Antonio Souza disse...

Meninas que rasgação de seda!
Mas concordo com a Bruna K.
A Amanda escreve divinamente bem!