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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Tia Jane

Acima de tudo, ela era uma boa tia. Posso dizer isso sem medo de ofender sua memória, porque ela amava muito seus sobrinhos e tenho certeza que ela estaria muito confortável tanto com o "boa tia" quanto com o "acima de tudo". Afinal, ela mesma se congratulava pelo afeto dos sobrinhos dizendo "It's better be a loving aunt than a famous writer". Não obstante, tia Jane é uma escritora famosa. Jane, além de boa tia, talentosa dançarina e escritora famosa, também era uma solteirona. Fato que talvez não pese tanto agora, mas com certeza pesava bastante na virada século XVIII para o século XIX na Inglaterra. Dizem - certamente, alguém diz - que nós escrevemos sobre o que conhecemos, Jane escrevia sobre a vida amorosa não realizada. É claro que vocês já conseguem adivinhar o sobrenome da boa tia Jane, escritora inglesa e solteirona, uma romântica.
Alguns podem definir Jane Austen como uma solitária por ela ter morrido sem marido nem filhos, mas duvido  muito que essa suposta solidão a debilitasse de algum modo. Ela tinha uma irmã, sua confidente, e muitos sobrinhos que gostavam de suas histórias. Eu me sinto confiante em afirmar que o fato de Jane continuar solteira até o fim de sua vida é devido ao fato dela mesma não acreditar num casamento sem amor, uma ideia deveras romântica e moderna para a época, já que casamentos eram vistos, em sua mais otimista faceta, como uma forma de ascensão social. Acredito também que isso foi crucial para ela começar a escrever seus romances carregados de belas utopias, críticas sociais e um humor inteligente. Afinal, dizem - e com isso sim, eu concordo - que arte nunca vem da felicidade. Ela é resultado de um sentimento que nos assombra: saudade, tristeza, solidão.
Apesar de meu romantismo se resumir praticamente apenas a Jane Austen, fanfictions e as demais coisas de caráter platônico e/ou utópico - principalmente as mais tristes e dolorosas -, ainda assim, eu me considero uma romântica. Ou quase. E, para mim, Jane Austen é um ótimo modelo a ser seguido. Ela foi uma solteirona, nunca conheceu o amor sobre o qual escrevia, mas depois de dois séculos após sua morte, ela continua sendo uma das escritoras mais lidas no mundo. Não é algo que possa ser dito de muitas pessoas.
Eu também desejo escrever um livro que as pessoas continuem comentando dois séculos depois. Pouco me importa a felicidade imediata ou a solidão ou se um dia vou experimentar um pouco dos sentimentos sobre os quais escrevo. Isso pouquíssimo importa se eu chegar ao nível de uma tal tia Jane. Perdoem se eu estiver me repetindo, mas isso é tudo o que eu sempre quis deixar no final: uma grande história. Se não for a minha vida, que seja algo que eu tenha escrito... Isso me parece ainda melhor.
Agradeço à tia Jane por mostrar-me que a solidão tem sua vantagem ou se não, pelo menos, pouco importa no final desde que eu deixe uma grande história.



Informações retiradas de um texto de Ivo Barroso (tradutor e poeta).

2 comentários:

Bruna K. disse...

Acho que preciso de uns livros da Jane Austen pra ler. (aka mais livros pra lista dos que tu vai me emprestar)

Amanda Schmidt disse...

Haha, pode deixar. Infelizmente, eu só tenho um, mas ele é o melhor dela que li até agora (digo, dos dois, contando este, que eu já li).