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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Divindade

Clarice era uma menina bonita. A beleza dela fazia as garotas tingirem o cabelo para tentar alcançar o exato cobre que se exibia nas mechas de Clarice. Os garotos viravam a cabeça quando ela passava, acompanhando-a com o olhar cheio de uma vontade vã. Clarice tinha aquele charme de garota bonita que não se dá conta da própria beleza, rindo com as amigas sem saber que estas a invejavam bem no fundo de suas almas.
Eu amava Clarice. Os olhos grandes transbordando um azul pálido, a pele de rosas e o nariz levemente empinado. Os vestidos floridos, as risadas escandalosas seguidas de um rubor tímido. Eu adorava o chão em que seus pequenos pés pisavam, idolatrava-a como um servo. Ah, e como a idolatrava! A minha deusa pagã, minha primavera em pleno inverno. As vezes ela me sorria, os dentes só um pouco mais afiados que o normal arreganhados num sorriso que era só doçura e eu me sentia recompensado por todo o amor que lhe tinha. Eu amava Clarice, mas ela distribuía sorrisos a muitos. Não havia malícia em seu ato, só a facilidade de quem é feliz de verdade. 
Quando fiz 18, guardei os sorrisos da minha deusa em uma caixa e parti para a cidade grande com os meus sonhos debaixo do braço. Desci do ônibus com minha Clarice ainda em meu coração, mas isso não durou nem até o meu quarto na pensão. Eu as via nas esquinas de braços dados a homens muito mais ricos do que eu, rindo alto de propósito e sem ruborizar depois. Tinham a pele negra como ébano ou pálida como neve, não eram deusas, eram mulheres de carne, osso e paixão. Clarice desvaneceu entre as esquinas e eu mergulhei nessa minha nova religião, ou melhor, falta de religião. Clarice era minha única religião, mas dela eu havia abdicado. 
Eu me apaixonei uma dúzia de vezes, pelas mulheres das esquinas grudadas nos braços dos ricaços, pelas recém divorciadas penduradas nos balcões dos bares, pelas prostitutas com sonhos ao vento, pelas donas-de-casa adoráveis com maridos ausentes. Eu sorria, pagava uma dose ou arriscava algum clichê romântico e elas vinham deitar-se em meus braços. Mulheres de verdade que a vida aos poucos lapidou de um jeito um tanto brutal. Mulheres da cidade grande com histórias tristes e humanas. Amei-as vorazmente e do mesmo modo as deixei - ou elas me deixaram - e assim eu me embriaguei do amor da cidade grande. Ironicamente, estava apaixonado pela realidade. Os sonhos murcharam na janela por falta de luz e alimento. Eu me tornei alguém preparado apenas para me apaixonar, tudo demais na vida me entediava.
Depois de 13 anos ou algo tão perto disso que não faz diferença, retornei a minha pequena cidade sem ter certeza do que havia conseguido - ou se havia conseguido alguma coisa - depois de todos esses anos. Descobri que Clarice havia se casado com Jorge, tido três filhos que, infelizmente, puxaram ao pai e ainda morava na mesma rua em que ela nascera. Eu a vi no jardim, cuidando dos filhos enquanto estes brincavam ao sol do meio-dia. A mim pareceu que o cobre de seu cabelo havia desbotado, queimado pelo sol; a ingenuidade encantadora da sua juventude dava um ar de estupidez a seu rosto adulto; os vestidos floridos que ela ainda usava me pareciam piegas demais. Tornou-se uma dona-de-casa sem sonhos na janela e que vai a casa das vizinhas ao fim da tarde para fofocar sobre o marido.
Então, dei-me conta de que Clarice não havia mudado nem um pouco, nem mesmo a idade parecia capaz de alcançá-la. Permanecia atemporal, como algo divino demais para ser humano. Clarice era a mesma, eu havia me tornado outra pessoa. Enquanto a observava de soslaio, o olhar dela encontrou o meu enquanto admirava o jardim dos vizinhos - provavelmente procurando por defeitos na grama ou flores mortas -, ela estancou e, depois de um momento em que tomava uma decisão, sorriu para mim e acenou. 
Ao acenar de volta para minha deusa do passado, percebi naquele reconhecimento imediato, naquela hesitação, naquele sorriso que não perdera nada do encanto, que talvez Clarice tenha me amado. Amou-me secretamente em seu coração incompreensível de menina-deusa. Ah, o coração de uma mulher era impossivelmente cheio de detalhes, complicado em sua superfície, inimaginável em sua profundeza. Até mesmo o coração das mulheres humanas que com tanto ardor  tinha amado, eu nunca entendi. O coração de Clarice estava acima dos homens e de suas imaginações rasas. Clarice que talvez tenha me dedicado um amor divino, proibido, de deusa para mortal.
Em uma época já a muito deixada para trás, esse mortal se curvaria devoto em adoração ao amor de Clarice, mas hoje isso quase me assustava. Clarice era como uma luz divina, uma religião, algo distante demais para eu alcançar. Agora vivo na escuridão, no pecado de amar somente os que são muito humanos, pois para mim o amor só poderia provir desses seres de carne e osso, ordinários em sua superfície, com paixões violentas revolvendo em suas entranhas. Clarice foi meu sonho, mas hoje os sonhos também não significavam tanta coisa. Costumo sonha-los somente para depois deixá-los morrer na janela. Não sei porque me apego tanto a realidade, talvez pelo medo de meus sonhos sempre utópicos demais arrastarem minha alma para fora da terra, para além dos universos, para um lugar onde a realidade é uma mera sombra e a vida é o sonho que morre na janela. Para mim, Clarice veio desse lugar.

2 comentários:

Antonio Souza disse...

Acabei lembrando das minhas Clarices. Muito parecidas com a do conto. Igualmente amadas de forma platônicas. Mas nunca as reví, uma delas apenas redes sociais. A realidade clama por continuidade e nos arrasta dos devaneios. Nos impõe um olhar adiante e memórias como migalhas.
Poxa Amanda quem lê esse conto crê ter sido escrito por um home. Você se supera com naturalidade.

Amanda Schmidt disse...

Obrigada! Engraçado, hoje mesmo estávamos discutindo sobre um texto que uma amiga minha escreveu (vulgo Bruna) e outras meninas comentaram que achavam estranho como alguém poderia escrever sobre uma situação que nunca viveu. Entretanto, acho que com quem escreve ocorre o contrário (pelo menos comigo), é muito mais fácil escrever sobre coisas que imagino e nunca vive do que sobre a minha realidade.