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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Filhos

Como crio os personagens? Eu gostava de pensar que todos eles eram pequenos pedaços de mim, mas se você ler minhas histórias encontrará personagens que são exatamente o meu oposto ou que nunca seriam associados a mim, tornando essa teoria da qual tanto gostava, impossível.
Para dizer a verdade, eles são meus filhos. Eu pari cada um deles, tirando-os diretamente da minha cabeça como Zeus fez com Atena. Alguns deles nasceram pequenos e acompanhei seu crescimento enchendo-os de detalhes como uma mãe enche os filhos de mimos. Outros já nasceram vestindo suas armaduras, seus vestidos de gala ou seus trapos, sem nenhum mimo... quero dizer, sem nenhum detalhe. Alguns até já nasceram com a corda em volta do pescoço.
Sim, eu sou uma mãe cruel. Já cometi os meus pecados. Amei mais uns filhos do que outros, muito mais, para falar a verdade. Alguns deles eu pari sem querer e sem perceber, gravidez acidental, sacrifício necessário. São meus renegados, os filhos que abandonei, mas eu já fiz pior. Alguns eu chamei de ela e outros chamei de ele. Pra muitos nem dei um rosto. Pobrezinhos, roubei seu direito de ter uma identidade.
Eu matei Tedd, matei Makenna! "Quem?!" Meus filhos. Meus filhos mortos. Eu sei que parece horrível, mas eu fiz. Eu os matei aos montes e para a maioria não houve piedade. Eu corrompi meus filhos. Eu os abandonei. Não dei nome a todos. Fiz eles sofrerem. Eu os enviei direto para um destino cruel de literatura ruim.
Alguns de vocês podem dizer que são só personagens, eles não existem! Ah, mas quem diz isso ignora o fato de que eu sou uma escritora (amadora sim, mas e daí?) e uma leitora voraz. Para mim, eles são reais. Eu os amo, sinto saudades e os mato. Aqui são os grandes salões da minha mente onde os assassinatos são cometidos. A porta ao fundo leva ao porão onde eu enterro os corpos para quem já escrevi a morte.
Então, sim, isso é real. Denunciem-me! Eu sou um monstro, mereço pena de morte. Está tudo aqui, já escrevi minha confissão. As armas do crime estão na mesa: as palavras. Vamos fazer justiça! Não, não... Vamos ter vingança! Não é assim? Olho por olho, história por história? Escrevam-me uma morte brutal, uma que de tão cruel seja impossível realizar-se nesse plano que chamamos de realidade. Façam com tal violência que ao serem escritas as palavras, o papel comece a verter sangue. Sim, sim. Escrevam-me um fim terrível, mas que seja bem escrito! Pois, se for assim, prometo-lhes vestir o melhor vestido, arrumar o cabelo, colocar perfume e ir sorrindo de encontro a morte.
É só isso que quero deixar no final. Uma grande história. Uma da qual meus filhos se orgulhem.

3 comentários:

Bruna K. disse...

Onde está o botão de reblog?

Antonio Souza disse...

Adorei!! Amanda sinto que tua forma de escrever me agrada, você à minha humilde opinião tem muito talento. Criar um mundo de fantasia requer imaginação, e vc faz isso com muita paixão.
De fato tens sido assassina! De muitos crimes tens confessado a culpa. Mas não cabe a tí julgar-te, isso nos compete! E teu fim terrível não será uma morte brutal, nem algo desse tipo.
Como sentença serás condenada a conviver com essa sina! Terás de criar mais e mais personagens, cada vez mais intensos e apaixonantes, e não poderás abrir mão de tortura-los, mata-los ou fazê-los infelizes. Terás de deixa-los partir e sentir para sempre a saudade de cada um deles. No mais de tudo estás absolvida!
Continue escrevendo! Boa sorte!

Amanda disse...

Oh. Obrigada aos dois.
Eu acho que posso conviver com essa sina, se for essa minha sentença.De novo, obrigada.