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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A menina que lentamente transformou-se em gelo


Era simples metáfora. Algumas palavras que com a sua boniteza vulgar pretendiam justificar ou simplesmente amenizar a insensibilidade dessa alma agora inerte. Diziam que ela tinha um coração de gelo, veja bem, era só uma metáfora. Agora é a bela e triste realidade. Para narrar tal história de maneira que levasse o leitor ao enlevo deveriam de ter arranjado um melhor autor(a). Minhas palavras não tem classe alguma. Entretanto, toda vida da nossa personagem foi uma poesia barata, por que deveria eu negar isso embelezando seu final com algum requinte desnecessário? Isso desonraria sua existência pra lá de ordinária.
Menina entregue ao enfastio, jogada aos pés do acaso sem nenhum cuidado. Seu corpo era o carcere de sua alma que buscava uma liberdade impossível no mundo físico. Não acreditava em nada se não no caos absoluto. Tinha horror ao amor estilo Romeu e Julieta, aquela doença vermelha e idealizada pelos amantes mais intensos. Entretanto, ela ouviu histórias. Belíssimas histórias de como era lindo se apaixonar, de como tudo era poesia. De como o outro trazia o verso que faltava para a sua estrofe final. Ansiou pela sensação, ansiou e temeu. Enquanto o tempo passava, imaginou se o amor dela era prosa ao invés de poesia. Imaginou se era rimado, pensou em poesia moderna. 
Porém, o coração dela era amaldiçoado com a doença contemporânea da solidão. Condenado a amar as histórias que lhe eram contadas, mas não realmente sentir. Depois de um tempo, passou a acreditar que o poeta que a escreveu havia resolvido troçar dela deixando-a sem uma estrofe final. Não havia coração que rimasse com o dela.
Anos e anos de enleio, aos poucos ela parecia esfriar. O coração batia mais devagar, a alma acuava-se no canto de sua jaula de entranhas. A vida bastou para congelar-lhe até os ossos. Falando assim, parece até que estou brincando de escrever figurativamente, mas estou sendo o mais literal possível. Um dia desses, ela estancou no meio do corredor, a pele indo de macilenta  à um azulado intrigante. Congelou entre o ir e vir, entre a porta de número 22 e as escadas, entre o belo e o mórbido. As pessoas também congelavam diante dela, dessa vez figurativamente, pendendo entre o susto e o encantamento. 
Queriam colocá-la em uma redoma para admirá-la por trás dos vidros e exclamar "Oh, que terrível! Que terrivelmente belo!", mas eu não permitiria tal coisa. A sua pele de gelo deve sentir o toque do sol e ela terá seu fim. Imagine permitir que permanecesse para sempre congelada nesse instante que antecede o final! Seria mais piedoso fazê-la em pedaços. 
Levei-a comigo, carregando sua pequena forma no colo como uma criança. Coloquei-a na minha varanda, na hora do ocaso, pois essa era a hora mais poética do dia. Derreteu laranja, como se vertesse lágrimas de luz. Poético? Gosto de pensar que dei a ela sua estrofe final.
Tenho para mim que não foi a falta de amor que a condenou a isso, mas as histórias. Contaram-lhe belas histórias e ela acreditou. 



[Ela que é só uma pobre desculpa para eu falar sobre meus sentimentos metaforicamente.]

3 comentários:

Bruna K. disse...

E eu continuo me espantando com a tua capacidade de me descrever.
Lindo, Amanda, muito lindo.

P.S.: preciso me acostumar com as nossas semelhanças

Irene Chemin disse...

Meus olhos se congelaram no texto, para depois derreterem-se em lágrimas.
Lindo.

Amanda disse...

Muito obrigada pelos comentários.

P.S.: Eu também, Bruna.