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sábado, 12 de fevereiro de 2011

Os pecados de Madalena

Todo mundo diz que vida de rico é fácil. Não estou aqui para desmentir esse fato, afinal, minha vida é fácil, mas a facilidade não impede que ela não seja também uma merda. Acordei de mau humor, tentando chutar os fantasmas do meu passado para baixo da cama enquanto levantava, mas não dá! A porcaria iria me perseguir o dia todo.
Não tomei café da manhã, porque não tinha paciência pra aguentar a cara de ressaca do meu marido. Fui direto para biblioteca, cabeceira do lado da janela, aquela com o abajur feio, segunda gaveta e tateei atrás do maço de cigarros. Encontrei. Estava vazio. Soltei um palavrão e fui me sentar na poltrona no centro do cômodo.
- Claudette! - Gritei. Como ela não chegou nos primeiros dez segundos, tentei de novo - CLAUDETTE!
A porta abriu-se e a criada gorducha entrou afobada, colocando os bofes pra fora como se tivesse corrido todo o caminho até ali. Bom. Não pagava criada para ficar se arrastando pela casa. 
- Que foi, dona Madalena? - Disse com sua voz doce feito canela.
- Vai lá no mercadinho e me traz mais um maço de cigarros. - Joguei o dinheiro pra ela. - E não compra daquela marca barata que você me trouxe semana passada. Eu quero os mais caros.
- Sim, dona Madalena. - Disse Claudette, já saindo.
O ritmo lento dela me deu nos nervos.
- Anda logo, mulher. Ou quer que eu tenha um ataque de nervos? - Gritei com ela.
Claudette apressou o passo, saiu da sala fechando a porta atrás de si.
Enquanto esperava pelos cigarros, dei uma olhada em volta. Aquela biblioteca nunca fora usada para ler. Todos os livros tinham cheiro de cigarro porque era ali que eu gostava de fumar. As poltronas, inclusive na qual eu me sentava, estavam manchadas de bebida, porque era onde meu marido vinha para beber escondido.
Uma foto chamou minha atenção. Era do tempo em que eu era jovem e não tinha os dentes amarelados pelo cigarro. Eu e Edvaldo estávamos sentados no capo de um dos carros importados dele, nunca consegui decorar os nomes daquelas máquinas. Tinha certeza que o maldito sempre amou essas coisas com motores mais do que a mim. Lembrei também que o retrato devia ser da época em que eu inventei de ser atriz. 
Eu já tentei ser modelo, atriz e cantora, mas nada disso deu certo, porque eu não tinha nem talento nem beleza o suficientes. Eu nunca tive emprego de verdade. Nem dona de casa eu era, já que eu não fazia nada em casa além de reclamar e fumar. Todo o dinheiro que nós tínhamos vinha do emprego de Edvaldo na política. Pagava os carros importados, a mansão, as duas casas na praia e meus cigarros. Claro que não era dinheiro justo. Roubou muito esse safado do Edvaldo, mas eu nunca reclamei. Já falei que isso compra meus cigarros?
Claudette entrou, deixou os cigarros comigo e saiu sem dizer nada. Eu preferia assim. Puxei um cigarro, acendi e dei uma tragada. Uma onda de prazer tomou conta de mim, mas não foi capaz de apaziguar meu humor. Nada mais era capaz disso. Mais umas tragadas e eu lembrei da minha última visita ao médico. Ele disse que eu ia morrer se não parasse de fumar. Cancêr no pulmão.
- É mesmo? - Eu disse pra ele, mal contendo a gargalhada. - FODA-SE.
Depois disso, eu fui embora batendo o pé. Olhe só, ele queria que eu me livrasse dos cigarros. Era a única coisa quase boa que sobrara na minha vida. E daí se fosse me matar?
Levantei da poltrona e fui me trancar no meu quarto. Enquanto fumava mais um cigarro, fitei meu reflexo no espelho com desprezo.
- Você está velha e feia, Madalena. - Disse para mim mesma entre as tragadas.
Eu tinha 45, mas parecia ter uns 59. Se tivesse sorte morria antes de fazer 46. Desviei o olhar do espelho e fitei a cama recém arrumada pelas criadas. Ali onde tive que aguentar o bafo de trago do Edvaldo essa noite de novo. Um arrepiou percorreu a minha coluna e eu fiquei com nojo só de pensar no meu marido. Ele já fora bem apessoado, não muito bonito, mas tinha charme. Hoje ele era um velho gordo e safado que me traia com garotas de 24 anos. 
Fui até a grande janela que iluminava o quarto com a luz do meio dia. Admirei a queda de quase três andares até a rua lá embaixo. Calculei que não morreria se me atirasse dali, só quebraria vários ossos. Suspirei e voltei a atenção ao cigarro. 
A verdade é que hoje em dia tudo me entediava. As pessoas, as roupas caras, a comida boa, a bebida, o sexo, a fama, as viagens. Tudo isso me deixava com preguiça de sair da cama. Eu não sairia nunca se não fosse pelos cigarros. Eles quase valiam a pena viver e seriam o que me levaria para o túmulo.
Esbocei um sorriso amarelo, literalmente. Cheguei a rir comigo mesma ao pensar que no meu leito de morte, poderia deixar uma acusação com provas da corrupção do meu marido. Não que isso fosse adiantar nesse país, mas quem sabe? Eu nunca cheguei a amar Edvaldo, mas hoje meu ódio por ele era tanto que eu só não o matava, porque achava que não valia o esforço. Era o mesmo motivo pelo qual eu não cometia suicídio, eu não valia o esforço. Não, eu iria morrer de câncer como deve ser e um mês depois meu marido iria se casar com uma vagabunda que teria idade pra ser sua filha. É isso.
Tossi um pouco, não sei se foi pelo cigarro ou pelo pensamento amargo. É, a vida é amarga. Amarga como um cigarro. Terminando o mesmo, tateei a procura de outro. Não havia mais nenhum. Droga de vida. Amarga como descobrir que não se tem mais cigarros. Preciso deles pra viver, preciso deles pra morrer! Tossi de novo, devia ser o câncer atacando meus pulmões. Os pensamentos sombrios rondavam minha mente como se fossem a fumaça do cigarro que acabara de fumar. 
Chega dessa merda, preciso de cigarros.
- Claudette!

3 comentários:

Antonio Souza disse...

Uauu... assim vc me assusta! Hiper realista! Tadinha da Claudette -tô brincado.
Excelente, esbanjou talento!
A que ponto deprimente chegam os valores humanos? A tábua da salvação; um cigarro...

Velha da Lua disse...

Ah, essas Madalenas! Muita essência no personagem. Parabéns!

Amanda disse...

Haha, obrigada pelos comentários.